Susan Boyle: da cruel realidade à realeza

A beleza está nos olhos de quem a vê, diz a sabedoria popular. Ante tanta comoção sobre a maravilhosa apresentação musical de Susan Boyle, concluí que sua performance revela a feiúra de cada um de nós.

De repente, a mulher de 47 anos é comparada a princesa de conto de fadas, tornando-se uma heroína internacional. E como todo super-herói que se propõe a grandes desafios, não foram poucos os que ela teve de entrentar. Suas armas: a postura correta, personalíssima, a voz pontuada por vibratos certeiros, num misto de doçura e firmeza, além de um escancarado talento. Mas nada disso poupou a cantora das farpas certeiras dos medíocres de plantão atiradas em sua direção.

Não houve matéria que não evidenciasse o fato de ter sido escarnecida pelos jurados, zombada pela platéia e jamais beijada. Nenhum olhar se furtou à tentação da maldade de empreender um julgamento a partir do crivo estético “da maioria” saboreando, ainda que por um pequeno lapso de tempo, o prazer de não ter de pagar o preço pela coragem de se expor e até de rir de si mesma quando a situação assim o exigiu. É como costumo dizer: todo mundo quer ser super-herói, mas ninguém quer vestir aquelas roupinhas ridículas… Pois ela vestiu a capa de Miss Boyle Maravilha e encarou os jurados com muita ousadia.

Revendo o vídeo, percebi que nada havia de errado com a cantora. Há muita malícia nas entrelinhas dos comentários. Observando mais atentamente, deparei com uma mulher interiorana, do alto de seus 47 anos, discretamente vestida (alguns considerariam seu vestido de gosto duvidoso, mas moda é a gente que faz, não é mesmo?); uma papada generosa, que talvez denuncie um problema de saúde relacionado à tireóide (mas, desde quando doença é motivo de escárnio?); sobrancelhas peludas, que eventualmente mereceriam uma limpeza (e Malu Mader? não é famosa pelas grossas taturanas que emolduram seu misterioso olhar?).

Detalhes da platéia

Numa panorâmica da platéia, meu olhar fotográfico capturou imagens de pessoas nem sempre conceitualmente belas a zombar de sua aparência. Talvez fosse mesmo de se esperar esse comportamento num país em que o príncipe herdeiro está mais para sapo, e sua princesa eleita também não é o que se pode chamar de modelo de formosura.

Mas, como nos deixamos escravizar pelos modelos? Acaso deveremos aos 40, 50, 60 anos ou mais perseguir desesperadamente a estética da butolinizada jurada platinum blonde? Ou podemos nos permitir expor as marcas do tempo, uns quilinhos a mais, nossa real e exclusiva maneira de representar a beleza no mundo, sem nos importar com os demais? Nossa heroína, eivada à condição de princesa, pôde, finalmente, ignorar a plebe rude que, ao final, se colocou a seus pés, reverenciando sua voz extraordinária.

A figura renascentista (no alto, à esquerda)  bem poderia ser o retrato da jovem Miss Boyle…

Percebi que muitas pessoas se projetaram em sua curiosa figura: a vitória de Susan representaria, afinal, o triunfo dos desprezados, dos desvalidos, daqueles cujo talento jamais foi devidamente reconhecido.  Contudo, para que alguém em tais condições seja valorizado, é preciso percorrer o caminho trilhado por ela: expor-se, mobilizar-se e, acima de tudo, ter uma boa panorâmica  e realista visão acerca de si mesma e das próprias qualidades.

Enfim, mais que torcer, aplaudir ou regozijar-se com a vitória da cantora, é preciso aproveitar seu modelo e empreender cada qual, com confiança e ousadia, as próprias conquistas.

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